1 - POR TRÁS DO FILME “RAONI” (1979 – 2015) : INTRODUÇÃO

 

Explicação: Jean-Pierre Dutilleux publicou em 15 de maio de 2015 um livro de memórias de suas expedições pelo mundo. Ele relata um episódio de 1980, que diz respeito ao Cacique Raoni, esse último estimado para receber o Prêmio Nobel da Paz, e que teria supostamente comprado armas de fogo com o dinheiro do filme "Raoni", realizado por Dutilleux.

O fato curioso, suscitou o interesse de vários meios de comunicação, incluindo a primeira estação de rádio da França, RTL. Nesta edição do programa "La Curiosité est un vilain défaut" de 24 de junho de 2015, (inclusa uma transcrição de alguns trechos - anexo 003), Dutilleux acusa o Cacique Raoni de ter sido cúmplice de contrabando de armas de fogo em plena ditadura militar. Ele também acusa o famoso indigenista Claudio Villas-Boas de tê-lo incitado a ser cúmplice também desse ato ilegal. Notificado do conteúdo do programa, o Cacique Raoni reagiu publicamente para denunciar as alegações de Jean-Pierre Dutilleux: um direito de resposta foi lido ao vivo por Thomas Hugues em 16 de setembro de 2015 (anexo 004). Esse direito de resposta não está disponível no podcast do programa.

Anexo 003 - trechos do aúdio do programa "La Curiosité est un vilain défaut", transmitido pela RTL em 24 de junho de 2015 - Jean-Pierre Dutilleux foi convidado por conta de seu livro "Sur les traces des peuples perdus" (Na Trilha dos Povos Perdidos) ed. Hugo-Doc.

  • 1. RTL_la-curiosite-est-un-vilain-defaut_24062015.mp303:40

 

 TRANSCRIÇÃO

 

Thomas Hugues (apresentador): A curiosidade é, obviamente uma qualidade do nosso convidado. Jean-Pierre Dutilleux, boa noite.

Jean-Pierre Dutilleux: Boa noite.

TH: Bem vindo a RTL. Você é diretor, fotógrafo e por 40 anos você viajou o mundo para encontrar os povos isolados, muitas vezes ameaçados pela urbanização, pela deflorestação.Só para contar a história, nós explicaremos depois porque agora a pouco nós escutamos a voz de Sting, essa voz cristalina, bela, porque isso faz parte da história (...) E o filme ele tem um destino incrível?

JPD: ah, sim, sim, então! Primeiro ele era clandestino esse filme. Nós tivemos que sair do Brasil clandestinamente, isso foi em plena ditadura militar, com uma equipe de basquete que levou os rolos fotográficos em suas malas. Nós chegamos no aeroporto do Rio, bla bla bla....

TH: O que aconteceu com ele então?

JPD: Ah, bem, ele foi selecionado para o Festival de Cannes, ele foi ao Oscar em Hollywood, houve Marlon Brando que aceitou fazer a versão inglesa e bla bla bla, o assunto começou a avançar, é isso. (...) Eu estava na Espanha e eu recebi uma ligação do meu agente em Londres me dizendo que os Txucarramae, que eu conheço bem, dos quais Raoni é o chefe, um dos chefes, hein, é preciso destacar, tinha massacrado 14 madeireiros. Então eles me mandaram lá. Eu fui até lá. Eu cheguei em São Paulo, na época, que nós passávamos para ir a Amazônia, nós pegávamos uma conexão, depois bla bla bla...E eu estive na Funai, que é a Fundação Nacional do Índio, onde eu encontrei os irmãos Villas-Boas, que estavam lá e eu lhes disse: "mais onde está Raoni? O que acontece? Porque ele matou os brancos?" Foi uma loucura! E nós estamos de acordo, que isso continua acontecendo, os índios, nós vamos todos matá-los. É preciso lembrar que havia 6 milhões de índios no Brasil no momento da descoberta - essa é uma estimação - e nos anos 70 restavam 75 mil. Eu falo dos índios que ainda vivem de modo tradicional, é isso. Então ele me disse: "ele está no jardim. Ele está na cabana no fundo do jardim" Então eu disse: "o que?"

TH: (risos) você acreditava que era uma piada?

JPD: Sim, eu pensei que era uma piada. Eu vou a cabana ao fundo do jardim.

TH: Isso é uma letra de uma canção de Francis Cabrel (cantor popular francês).

JPD: Tudo isso é muito misterioso, os irmãos Villas-Boas fecharam o escritório e foram pra casa. E lá, Raoni, ele tinha uma vela, ele estava com o caçador de panteras Ngoroire, que o segue para todos os lugares, que é um pouco seu segurança, e ele me abraça e me diz: "tudo bem? O que você está fazendo aqui?"

Sidonie Bonnec (apresentadora): Ah, ele te disse isso, o chefe Raoni? "O que você está fazendo aqui?"

JPD: Ele me disse: "Eu vim fazer compras" "Ah é?" "compras, que compras? "Olhe!" e então sairam da sua cama caixas de fuzis.

TH: Ui... !

JPD: Eu disse: "mas então, você é doente ou o que?

SB: Quem você ainda quer matar?

JPD: sim sim, "espera" "não, não". Ele diz : “não te preocupes, isso é para caçar”. Na realidade é uma dissuasão, é isso. Eu entendi mais tarde. Eu o perguntei: "Como você pode comprar essas armas?" E ele me disse: "Bem, com o dinheiro do filme!".

SB: (chocado) Então o chefe da amazônia Raoni comprou com o dinheiro do seu filme que o colocou em cena e o revelou ao mundo, armas para matar os madeireiros?

JPD: Isso!

SB: bravo!

JPD: Você vê um pouco a situação, em plena ditadura. E depois ele me disse: "agora, você vai levá-las a aldeia. Nós vamos retornar a aldeia com as armas".

SB: ele te pediu para ser cúmplice, Jean-Pierre Dutilleux?

JPD: Ele me pediu para ser cúmplice, é isso.

TH: você hesitou? Porque ele te pediu para comprar munição também.

JPD: ah sim, porque eu não dormi a noite toda. Por um lado eu tinha uma reportagem para fazer, era uma história incrível, por outro lado era realmente perigoso, porque naquele tempo, fazer contrabando de armas para ir a uma área onde os índios massacraram os madeireiros, foi assim que aconteceu mais ou menos.

TH: Sim, e o Brasil de 1980, não é o Brasil de hoje, hein?

JPD: Não é realmente esse de hoje!

SB: Então, você foi? Quer dizer, você o ajudou a levar essas armas?

JPD: então, eu fui ver o velho Claudio (Villas-Boas) e eu o disse: "Então, o que eu faço?" Ele disse: "É simples, você é pelos índios ou você é contra os índios?" Eu disse: é evidente que eu estou com eles". Essa foi a resposta. Então, eu fui lá.

 

Anexo 004: excertos de áudio do programa La curiosité est un vilain défaut (“A curiosidade é um grande defeito”) na rádio RTL de 16 de setembro de 2015 - Direito de resposta de Cacique Raoni foi difundido no dia 16 de setembro de 2015 em RTL, após o programa de 24 de junho de 2015.

Transcrição: Durante a transmissão do 24 de Junho, Jean-Pierre Dutilleux, etnógrafo, foi recebido no programa radiofónico, onde ele relatou várias anedotas cuja uma sobre o Cacique Raoni. Sua narração dos fatos poderia ter deixado pensar que em 1980 Raoni ainda tinha matado brancos, que isso era loucura, que ele teria financiado a compra de armas graças ao dinheiro do documentário filmado em 1976.

O Cacique Raoni está envolvido na luta pela preservação de toda forma de vida há mais de 40 anos. Ele nega veementemente os assassinatos que lhe seriam imputados. Neste sentido, deve-se lembrar que ele conseguiu várias vezes prevenir conflitos entre seu povo e os madeireiros ilegais. Ele não recebeu qualquer forma de retribuição da filmagem do documentário Raoni em contrapartida.

A anedota contada por Jean-Pierre Dutilleux, sobre a detenção e transporte de caixas de armas, é falsa e susceptível de desacreditar a ação de Cacique Raoni.

 

SUMÁRIO GERAL :

JEAN PIERRE DUTILLEUX, A BARRAGEM BELGA DA AMAZÔNIA

1. POR TRÁS DO FILME “RAONI” (1979 – 2015)

2. STING EXPULSA DUTILLEUX DEVIDO A ENRIQUECIMENTO PESSOAL (1990)

3.UM BELGA EXPLORA OS ÍNDIOS DA AMAZÔNIA E TENTA UM GOLPE DE 5 MILHÕES DE $ NA EUROPA (1991)

4. UM DEPÓSITO ILÍCITO DA MARCA RAONI (2010)

5. DUTILLEUX PROIBIDO DE ENTRAR EM TERRITÓRIO KAYAPÓ E PERSEGUIDO POR VENDA DE FOTOS (2000-2004)

Anexos do documento